quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Pequena diversão
Não tem nada que ver, mas este belo clipe do Little Joy me lembrou o belo clipe da saudosa Video Hits. É, eu sei.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Sobre amar e odiar um pai
Um trabalho árduo que levou em torno de sete anos, envolvendo histórias nada agradáveis sobre seu pai e contextualizando uma família abalada por diversos episódios envolvendo sexo, morte e perda. Em uma definição bastante reducionista, isto é Fun Home, graphic novel da americana Alison Bechdel. Ainda que continuamente (e inevitavelmente?) o trabalho seja resumido às suas questões da homossexualidade, seria bastante injusto encerrar a importância desta obra tão somente nisto. É bom que se esclareça, portanto, sua trama.
Em Fun Home, a quadrinista Alison Bechdel mergulha em pesadas memórias de infância para contar a história de sua família. Neste emaranhado, considere os seguintes elementos: a fase infantil envolvendo brincadeiras com os irmãos em uma casa funerária pertencente à família, às voltas com um pai adorador em excesso de decoração, jardinagem e literatura clássica - acrescente aí uma obsessão por Scott Fitzgerald - e uma mãe resignada, que prefere se enfurnar em sua tese de mestrado e seus exercícios de dramaturgia amadora. Elementos suficientes para a criação de um belo drama familiar ou um dramalhão lacrimoso. Felizes somos que a autora tenha conseguido, magistralmente, compor uma obra que, sem dúvida, se enquadra na primeira definição. Porque, além dos elementos já citados, vamos incluir os que têm contribuído para definir muitas vezes o livro de Bechdel como uma obra que leva "homossexualidade e morte às HQs": na adolescência, Alison descobre-se lésbica, o que faz com que sua mãe conte que seu pai, Bruce, é gay - pai este que morrerá de forma violenta três meses depois deste manancial de revelações. O resultado disto transformado em quadrinhos é tão bem construído que a autora ganhou em 2007 com ele o Prêmio Eisner.

Muitos são os fatores que contribuem para fazer de Fun Home uma obra tão delicada e sofisticada em sua elaboração, sem entender por sofisticação recursos gratuitos e pretensamente intelectuais que a obra teria todos os motivos para conter. Sim, porque há ali a inserção de muita referência literária, citações por vezes claras e creditadas e por vezes sutis, a obras de Proust, Joyce, Camus, entre outros. Nunca gratuitas, deixemos isto bem claro. Já seria rebuscado o bastante se a autora o fizesse como elemento de estruturação de sua trama, mas as mesmas ainda se justificam pelo fato de terem feito parte da formação intelectual da família, presentes nas estantes vitorianas da clássica biblioteca de seu pai. Um pai que reunia uma séria de ocupações que, desde já, asseguram sua presença no panteão de ótimos personagens para se construir. Senão vejamos: professor de inglês e literatura, também trabalhava como embalsamador da funerária da pequena cidade onde viviam, uma empresa que era uma herança familiar. Desta segunda ocupação surge o título da HQ, Fun Home (casa da diversão), contração de Funeral Home (casa funerária). Não bastasse isto, sua grande paixão também era restaurar casas e mesetas de arquitetura clássica - o que fazia, em sua comunidade - e cuidar de jardins, com um conhecimento apurado sobre plantas e flores. "Uma bicha", como define a própria Bechdel em um dos quadrinhos.
Alison Bechdel escreve e desenha a tira Dykes to Watch Out For (algo como “Sapatas para ficar de olho”), desde 1983, em publicações gays. É fato que, com Fun Home, seu espectro de admiradores se ampliou intensamente, uma vez que o mesmo - e isto é bom que seja repetido - não se concentra em uma abordagem sexual, investigando causas e motivações para a homossexualidade de pai e filha. A obra trata de contar a história de uma família. E para isto a autora mergulhou fundo na investigação de cartas, documentos, registros policiais entre outros. Incluindo aí as histórias contadas por sua própria mãe, apoiadora em uma primeiro momento da decisão da filha em contar a história da família, mas que se confessou traída com certos segredos ali revelados.

Escolhida pela Time Magazine como melhor livro de 2006, nunca concentra um olhar simplista pela história que aborda. Assim também é vista a morte violenta de seu pai, atropelado em uma rodovia enquanto trabalhava em um jardim - por vezes a autora é fatídica ao enunciar tratar-se de suicídio; outras, deixa somente a nebulosidade por um talvez terrível acidente: todas suposições largadas a partir dos diversos aspectos da vida do pai que a autora apresenta. A narrativa se dá como as lembranças surgem em nossa memórias, de forma não linear, adiantando-se e recuando nas histórias de sua família. São cruzamentos que a autora faz entre as diversas fases da sua vida, indo e vindo em constantes elucubrações e conclusões, apoiando-se em cartas, fotografias e toda sorte de elementos que, como uma detetive, utilizou para registrar a história. Esta forma não-linear de cruzamento de histórias mostra-se extremamente eficaz para aliar a elas obras literárias cujos aspectos estéticos compartilham com sua própria história ou foram peças de formação que construíram seu caráter e de seu pai.
Narrativamente, Fun Home, se utiliza do voice off: frases no alto dos quadros que explicam o que está sendo mostrado na cena. Diferente do comumente aplicado em hqs, aqui a utilização dos balões é reduzida enquanto prática de elaboração de diálogos completos, servindo mais como pontuação de frases. O que Alison consegue, entretanto, usando este recurso considerado no cinema como forma pobre de narração, é evitar a redundância que comumente este show and tell me poderia (e quase sempre o faz) possibilitar. A narrativa escrita se complementa à narrativa desenhada, não a explica. Assim, a autora pode - e faz muito - uso da ironia entre o que está sendo dito e o que está sendo mostrado, criando um jogo de contraposições rico (e por vezes cruel) o bastante para enunciar lembranças dolorosas e mórbidas, motrando cenas líricas e cândidas - e vice-versa. O cuidado com a linguagem - escrita e desenhada - é tão preciso que, mesmo na sua sagacidade, a autora nunca resvala para o cinismo que uma história tão repleta de mágoa poderia suscitar.
Graficamente, a autora tem um estilo de traço que remete a Robert Crumb - refinado e realista, preciso na medida para construir personagens com quem nos importamos e que são tão claros em seus sentimentos, mesmo em se tratando de um cartum. Em preto e branco, somente fazendo concessões ao azul para quebrar a monotonia. Em Fun Home, Alison Bechdel se empenha genialmente em juntar pedaços a fim de construir também sua própria personalidade. Analisando com amor e ódio uma figura tão contraditória quanto seu próprio pai, a autora também constrói e descobre sobre sua própria formação, o quanto uma família disfuncional contribui para fazer dela quem ela é.
Em Fun Home, a quadrinista Alison Bechdel mergulha em pesadas memórias de infância para contar a história de sua família. Neste emaranhado, considere os seguintes elementos: a fase infantil envolvendo brincadeiras com os irmãos em uma casa funerária pertencente à família, às voltas com um pai adorador em excesso de decoração, jardinagem e literatura clássica - acrescente aí uma obsessão por Scott Fitzgerald - e uma mãe resignada, que prefere se enfurnar em sua tese de mestrado e seus exercícios de dramaturgia amadora. Elementos suficientes para a criação de um belo drama familiar ou um dramalhão lacrimoso. Felizes somos que a autora tenha conseguido, magistralmente, compor uma obra que, sem dúvida, se enquadra na primeira definição. Porque, além dos elementos já citados, vamos incluir os que têm contribuído para definir muitas vezes o livro de Bechdel como uma obra que leva "homossexualidade e morte às HQs": na adolescência, Alison descobre-se lésbica, o que faz com que sua mãe conte que seu pai, Bruce, é gay - pai este que morrerá de forma violenta três meses depois deste manancial de revelações. O resultado disto transformado em quadrinhos é tão bem construído que a autora ganhou em 2007 com ele o Prêmio Eisner.

Muitos são os fatores que contribuem para fazer de Fun Home uma obra tão delicada e sofisticada em sua elaboração, sem entender por sofisticação recursos gratuitos e pretensamente intelectuais que a obra teria todos os motivos para conter. Sim, porque há ali a inserção de muita referência literária, citações por vezes claras e creditadas e por vezes sutis, a obras de Proust, Joyce, Camus, entre outros. Nunca gratuitas, deixemos isto bem claro. Já seria rebuscado o bastante se a autora o fizesse como elemento de estruturação de sua trama, mas as mesmas ainda se justificam pelo fato de terem feito parte da formação intelectual da família, presentes nas estantes vitorianas da clássica biblioteca de seu pai. Um pai que reunia uma séria de ocupações que, desde já, asseguram sua presença no panteão de ótimos personagens para se construir. Senão vejamos: professor de inglês e literatura, também trabalhava como embalsamador da funerária da pequena cidade onde viviam, uma empresa que era uma herança familiar. Desta segunda ocupação surge o título da HQ, Fun Home (casa da diversão), contração de Funeral Home (casa funerária). Não bastasse isto, sua grande paixão também era restaurar casas e mesetas de arquitetura clássica - o que fazia, em sua comunidade - e cuidar de jardins, com um conhecimento apurado sobre plantas e flores. "Uma bicha", como define a própria Bechdel em um dos quadrinhos.
Alison Bechdel escreve e desenha a tira Dykes to Watch Out For (algo como “Sapatas para ficar de olho”), desde 1983, em publicações gays. É fato que, com Fun Home, seu espectro de admiradores se ampliou intensamente, uma vez que o mesmo - e isto é bom que seja repetido - não se concentra em uma abordagem sexual, investigando causas e motivações para a homossexualidade de pai e filha. A obra trata de contar a história de uma família. E para isto a autora mergulhou fundo na investigação de cartas, documentos, registros policiais entre outros. Incluindo aí as histórias contadas por sua própria mãe, apoiadora em uma primeiro momento da decisão da filha em contar a história da família, mas que se confessou traída com certos segredos ali revelados.

Escolhida pela Time Magazine como melhor livro de 2006, nunca concentra um olhar simplista pela história que aborda. Assim também é vista a morte violenta de seu pai, atropelado em uma rodovia enquanto trabalhava em um jardim - por vezes a autora é fatídica ao enunciar tratar-se de suicídio; outras, deixa somente a nebulosidade por um talvez terrível acidente: todas suposições largadas a partir dos diversos aspectos da vida do pai que a autora apresenta. A narrativa se dá como as lembranças surgem em nossa memórias, de forma não linear, adiantando-se e recuando nas histórias de sua família. São cruzamentos que a autora faz entre as diversas fases da sua vida, indo e vindo em constantes elucubrações e conclusões, apoiando-se em cartas, fotografias e toda sorte de elementos que, como uma detetive, utilizou para registrar a história. Esta forma não-linear de cruzamento de histórias mostra-se extremamente eficaz para aliar a elas obras literárias cujos aspectos estéticos compartilham com sua própria história ou foram peças de formação que construíram seu caráter e de seu pai.
Narrativamente, Fun Home, se utiliza do voice off: frases no alto dos quadros que explicam o que está sendo mostrado na cena. Diferente do comumente aplicado em hqs, aqui a utilização dos balões é reduzida enquanto prática de elaboração de diálogos completos, servindo mais como pontuação de frases. O que Alison consegue, entretanto, usando este recurso considerado no cinema como forma pobre de narração, é evitar a redundância que comumente este show and tell me poderia (e quase sempre o faz) possibilitar. A narrativa escrita se complementa à narrativa desenhada, não a explica. Assim, a autora pode - e faz muito - uso da ironia entre o que está sendo dito e o que está sendo mostrado, criando um jogo de contraposições rico (e por vezes cruel) o bastante para enunciar lembranças dolorosas e mórbidas, motrando cenas líricas e cândidas - e vice-versa. O cuidado com a linguagem - escrita e desenhada - é tão preciso que, mesmo na sua sagacidade, a autora nunca resvala para o cinismo que uma história tão repleta de mágoa poderia suscitar.
Graficamente, a autora tem um estilo de traço que remete a Robert Crumb - refinado e realista, preciso na medida para construir personagens com quem nos importamos e que são tão claros em seus sentimentos, mesmo em se tratando de um cartum. Em preto e branco, somente fazendo concessões ao azul para quebrar a monotonia. Em Fun Home, Alison Bechdel se empenha genialmente em juntar pedaços a fim de construir também sua própria personalidade. Analisando com amor e ódio uma figura tão contraditória quanto seu próprio pai, a autora também constrói e descobre sobre sua própria formação, o quanto uma família disfuncional contribui para fazer dela quem ela é.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Autógrafos Ficção de Polpa, Vol.3
Mais uma sessão de autógrafos de Ficção de Polpa, Vol. 3. Para quem, como eu, não foi na primeira vez (a noite mais chuvosa dos últimos 100 anos de Porto Alegre =P), aí está uma oportunidade imperdível. Badalação, piadas literárias e eu, caneteando bonito autógrafos inesquecíveis. Abaixo, o serviço. Espero vocês lá!

sábado, 24 de outubro de 2009
Flight of the Conchords
Também publicado no BlackBox.
Flight of the Conchords é uma comédia que segue o dia a dia de uma banda folk neozelandesa, composta por duas pessoas que vão para Nova Iorque tentar fazer nome no mundo da música. Os neozelandeses Bret McKenzie e Jemaine Clement são guitarristas e vocalistas da banda. Eles se mudam para Nova Iorque na tentativa de construir uma carreira de sucesso. Até agora eles conseguiram encontrar um agente (que tem um "outro" emprego no Consulado da Nova Zelândia), uma fã (uma mulher casada e obsessiva) e um amigo (que é dono de uma casa de penhores local) - mas não conseguiram muito mais além do que isso. Elogiada pela crítica, a série foi criada por James Bobin (de "Da Ali G Show") e pelos próprios atores Jemaine Clement e Bret McKenzie.
O grande lance é que na série, os atores interpretam a eles mesmos, em uma versão menos bem-sucedida, já que, na real, os atores-músicos já emplaram discos com sucesso (pelo legendário selo Sub Pop).
Vai um pouco no naipe de The Lonely Island, do qual falarei aqui em breve: comédia de primeira aliada à uma composição musical muito esmiuçada. Os temas são típicos dos humor estadunidense, mas a qualidade das músicas é primorosa, com pegada - um cuidado que vai muito além do mero pastiche musical, ou somente da paródia, coisas que foram muito usadas na comédia.
Abaixo, um trecho do episódio 05 da primeira temporada, denominado Sally Returns.
Flight of the Conchords é uma comédia que segue o dia a dia de uma banda folk neozelandesa, composta por duas pessoas que vão para Nova Iorque tentar fazer nome no mundo da música. Os neozelandeses Bret McKenzie e Jemaine Clement são guitarristas e vocalistas da banda. Eles se mudam para Nova Iorque na tentativa de construir uma carreira de sucesso. Até agora eles conseguiram encontrar um agente (que tem um "outro" emprego no Consulado da Nova Zelândia), uma fã (uma mulher casada e obsessiva) e um amigo (que é dono de uma casa de penhores local) - mas não conseguiram muito mais além do que isso. Elogiada pela crítica, a série foi criada por James Bobin (de "Da Ali G Show") e pelos próprios atores Jemaine Clement e Bret McKenzie.
O grande lance é que na série, os atores interpretam a eles mesmos, em uma versão menos bem-sucedida, já que, na real, os atores-músicos já emplaram discos com sucesso (pelo legendário selo Sub Pop).
Vai um pouco no naipe de The Lonely Island, do qual falarei aqui em breve: comédia de primeira aliada à uma composição musical muito esmiuçada. Os temas são típicos dos humor estadunidense, mas a qualidade das músicas é primorosa, com pegada - um cuidado que vai muito além do mero pastiche musical, ou somente da paródia, coisas que foram muito usadas na comédia.
Abaixo, um trecho do episódio 05 da primeira temporada, denominado Sally Returns.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Blogueiro profissional
Agora, além de manter esta casa de boa familia, também sou um dos responsáveis pelo BlackBox, o blog da agência. Sim, exatamente neste período em que o discurso-mor é do falecimento do blog enquanto ferramenta de comunicação, a SPR resolveu ter o seu blog. O motivo? Todas as razões estão convenientemente explicadas por aqui.
O mais engraçado é que apesar de ter uma rotina tradicionalmente avassalada pelo trabalho diário na agência, às voltas com a insanidade da criação publicitária; a criação literária, e, além disto, tentar me regrar para manter o Suburbana (já bastante desprezado, em parte devido ao uso intenso do Twitter), o fato de blogar no BlackBox parece me impregar de uma maior disciplina no uso destas ferramentas sociais. Agora, profissionalmente, sou forçado a me pautar para os posts que faço por lá - e, por tabela, também me pauto para os posts que acho interessante publicar por aqui. Contribui para isto que o BlackBox não seja um "tradicional" blog de agência, somente interessado na comunicação dos trabalhos criados internamente. Há uma grande liberdade criativa por lá, assim como no trabalho diário na agência, o que só contribui para a espontaneidade do mesmo e para a pertinência dos assuntos tratados. Desta forma, BlackBox e Suburbana acabam coexistindo bastante irmamente.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Twittadas não nos derrubarão
É certo que eu tenho andado muito mais por aqui do que por aqui. Publicando uma infinidade de comentários muitas vezes sobre o nada, sobre propaganda, literatura e sobre coisa nenhuma. Sobre o que se chama cultura. Dando pitacos à torto e à direito. Mais ou menos da maneira que sempre pretendi fazer neste blog. Que, no entanto - não assustai-vos, ó meus sete leitores! - não morreu hoje e (por mim, ao menos, um apaixonado por coleções, sobreposições e guarnições), não morrerá jamais. Já se vão 7 anos deste guerreiro blog Suburbana e, mesmo modernices daqui e dali não o levaram à bancarrota. E não haverão de levar.
Brincadeiras à parte, as possibilidades quase infindáveis de exercitar a crítica longa e complexa, de me estender enormemente pelos assuntos que formam meu mundinho, só este blog possibilita. Mesmo nas casas de boa-família onde normalmente estendo meus domínios - nada é mais meu chão do que este blog.
Em breve, portanto, novos textos por aqui.
Brincadeiras à parte, as possibilidades quase infindáveis de exercitar a crítica longa e complexa, de me estender enormemente pelos assuntos que formam meu mundinho, só este blog possibilita. Mesmo nas casas de boa-família onde normalmente estendo meus domínios - nada é mais meu chão do que este blog.
Em breve, portanto, novos textos por aqui.
sábado, 22 de agosto de 2009
A fortaleza da solidão
Como um fósforo riscado num quarto escuro:
Duas meninas brancas, de camisola de flanela e patins de vinil vermelho com cadarços brancos, traçando círculo hesitantes numa calçada de pedra azulada e cheia de rachaduras às setes horas de uma noite de julho.
As meninas murmuravam rimas infantis, eram rimas infantis, com seus cabelos rosa-celeste, finos como névoa, fluindo torrencialmente como se nunca tivessem sido cortados. Os pais das meninas tinham deixado que elas voltassem para a rua depois do jantar, desde que antes vestissem a camisola e escovassem os dentes, para se banharem no entardecer rosa-alaranjado do verão, o ar e a luz que pairavam sobre a rua e sobre todo o bairro de Gowanus como a palma de uma mão ou a superfície interna de uma concha. Os homens porto-riquenhos sentados em engradados em frente à bodega da esquina grunhiram diante da aparição, sem saber ao certo o que estavam vendo. Arreganharam os lábios para mostrar os dentes uns aos outros, um gesto que era uma demonstração de paciência, de tolerância solienciosa. A rua estava repleta de chapinhas semi-enterradas no asfalto amolecido, Yoo-Hoo, Rheingold, Manhatan Special.
As meninas, Thea e Ana Solver, brilhavam como uma chama recém-acesa.
Antes dos Solver, uma velha senhora branca já havia se mudado para o quarteirão imbuída da missão de resgatar um dos sobrados violentados, um sobrado que antes era uma casa de cômodos, substituindo quinze homens apenas consigo mesma e seus pertences encaixotados. Ela foi a primeira, na verdade. Mas Isabel Vendle só se movia furtivamente, como um rumor, um apóstrofo dentro de sua brownstone, onde nesse momento ela se arrastava de bengala entre o apartamento do subsolo e o seu quarto no térreo, na antiga sala de visitas, para o quarto onde ela lia e dormia sob o esfacelado teto de gesso não restaurado. Isabel Vendle era curta feito o nó de um dedo, seu corpo se dobrava ao redor da cartilagem de velhas feridas. Isasbel Vendle relembrava um passeio de carro no lago George num barco latado, escrevia cartas mergulhando a caneta num tinteiro, umedecia selos passando-os numa esponja sobre um pires. O tampo da mesa era de cortiça. Isabel Vendle tinha dinheiro, mas os cômodos do subsolo da casa fediam a casca de fruta e jornal molhado.
As meninas de patins eram a novidade, sob o foco dos holofotes para iniciar o show: os brancos estavam voltando para a Dean Street. Alguns.
.........
Eu ia começar este post falando da extrema semelhança na narrativa dos jovens escritores norte americanos. Os jovens. Não falo de Philip Roth, não falo de Thomas Pynchon nem Don DeLillo, estes bastiões da literatura estadunidense. Refiro-me aos Jonathans (Lethem, de quem retirei o trecho acima, de seu A fortaleza da solidão; Safran Foer, sem dúvida o mais hypado dos três; Franzen - autor do sensacional As correções). Refiro-me, também, a Michael Chabon e mais uns tantos que, no momento, não me vêem. No entanto, acho que isto é assunto para outro post. Fica a provocação. Segue, então, minhas opiniões sobre este calhamaço de Jonathan Lethem.
Repleto de referências pop, a começar pelo título, e quase todas elas do universo dos quadrinhos - ao estilo e trazendo à mente, instantaneamente, o escritor um pouco mais conhecido no Brasil, Michael Chabon - A fortaleza da solidão, de Jonathan Lethem conta a história de amizade de dois garotos que, em comum, só tem três coisas: os nomes de gênios da música, a paixão pela chamada banda desenhada e o fato de serem criados longe de suas mães, por pais fechados em seu próprio universo (e os dois universos repletos da amargura de serem artistas, cada um em seu campo, não-realizados em suas carreiras). De resto, Dylan Ebdus e Mingus Rude são, com o perdão da frase fácil, opostos que se atraem: Dylan, um dos poucos garotos brancos do Brooklin, importunado quase todos os dias pelos garotos negros do bairro: no começo do livro estamos nos anos 70, quando os ideais da integração racial ainda eram um rascunho em um bairro eminentemente negro e latino; Mingus, o negro bem nascido, filho de ex-cantor de soul, que ao invés de escolher ser mais um dos “agressores” de Dylan, prefere deixar sua marca de outra forma, tornando-se um dos mais ousados grafiteiros do Brooklin.
Os quadrinhos são o ponto de encontro de Dylan e Mingus - mesmo que a escola, os hábitos sociais e tudo o mais (afinal, era uma época em que qualquer atitude estava repleta de componentes raciais que poderiam se tornar faísca para maiores conflitos) compactuassem para o contrário. E são os quadrinhos de super-heróis, mas também o grafite, o soul, o funk e o hip-hop, que se tornam combustível para a amizade que se estabelece entre os dois.
Romance de formação com elementos autobiográficos, A fortaleza da solidão é leitura prazerosa não só pelo ritmo envolvente e extremamente seguro com que Lethem quase que documenta a ocupação do Brooklin por brancos de classe média e a tensão racial decorrente disto. O livro é também um registro do passado recente estadunidense, flagrando a difícil relação entre negros e brancos em meio a uma busca da prometida integração racial.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Ficção de Polpa no “A Tarde”
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Papito (ou incursão romântico-gastronômica II)
Toda vez que penso em escrever sobre minhas incursões gastronômicas, sofro a angústia da influência de Diego e Diogo, os responsáveis pelo sempre ótimo Destemperados. É claro que longe do talento e mais longe ainda da pretensão de me equiparar à qualidade - e relevância - do trabalho dos caras, minha análise aqui tem um caráter ainda mais informal que o deles: são somente recuerdos esparsos, impressões pessoalíssimas sobre minhas aventuras nos redutos da boa comida porto alegrense. Tão esparsos que o outro registro desta natureza já tem bastante tempo.Mas a verdade é que, em uma sequencia de dois fins de semana seguidos, fui bater meu ponto no Papito, Bar & Armazém ali na Padre Chagas, 293. Neste período, o ambiente se mostra ainda mais acolhedor do que sempre - julgo eu, um amante inveterado das noites frias, que se regozija em saber e em aproveitar o calor da lareira que o Papito, nas noites de inverno, disponibiliza para quem senta lá dentro, longe da "sacada" que faz tanto sucesso no verão. Não obstante o fato desta área externa ser reduto dos fumantes, o fato é que o ambiente interno ganha todos os pontos nesta época invernal: um grande sofá, onde se fica no maior aconchego, muito em frente à lareira - um convite para o permanecimento, como o fiz nestes dois momentos.
O resultado? Como sou um cara mais ou menos tradicional, não costumo mexer no que é vitória acertada, o que justifica o fato de ceder sempre ao mesmo prato do cardápio: o fatal risoto de cordeiro. Servido em uma panelinha esmaltada, com um pernil de cordeiro adornando o prato, me causa lamentação o fato de não dominar os termos necessários para a devida apreciação estética do mesmo. Um imbecil que sou, não fui capaz de decorar os ingredientes da preparação do mesmo, contidos no menu. Mas eis que este é um instante tão somente de adoração. E não menos do que isto foi o que fiz, adorando cada segundo de degustação daquele prato, ainda mais delicioso acompanhado de um tinto. Como o aconchego é grande e todo o clima propiciado é um convite a não partir, eu e Nani - que quedou-se com um risoto de frango, também delicioso - permanecemos até pôr fim à sobremesa: um petit gateau sensacional, de raspar o chocolate do prato, tal qual o do Constantino, e que só deve perder para o do Le Bistrot.
Muitos pontos para o Papito, que segue incólume como um dos meus locais preferidos em Porto Alegre.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Mais John Fante trabalha no Esquimó
Saiu na Scream&Yell minha crítica ao livro do Mariel Reis, John Fante trabalha no Esquimó. Dá o conferes.
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